A Teologia de Elifaz- Só os pecadores sofrem?

A Teologia de Elifaz: só os pecadores sofrem?

“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas, segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5). A suma do discurso de Elifaz supõe que a justiça, invariavelmente, produz bem-estar; e a injustiça, o infortúnio; e, que existe uma proporção direta entre o pecado e o sofrimento. Deus não trata seus filhos com base num amor mercantilista e comercial. A base de seu relacionamento para conosco é a sua graça — infinita e inexplicável graça.

Texto Bíblico (Jó 4.1-8; Jó 15.1-4; 22.1-5)

Quem era Elifaz

O significado de Elifaz, em hebraico, traz um emblema bastante elucidativo: Meu Deus é forte. Infere-se daí tenham sido seus pais gente de reconhecida piedade. Doutra forma: jamais colocariam um nome tão especial no filho.

A procedência de Elifaz. Além de sua amizade com Jó, a única coisa que de Elifaz sabemos é a sua procedência. Era ele originário de um lugar chamado Temã que, segundo se pode apurar, ficava no território que viria a ser ocupado pelos filhos de Edom. Infere-se, ainda, que os moradores de Temã tinham um razoável conhecimento de Deus.

Elifaz: teólogo ou filósofo? Dos discursos de Elifaz, conclui-se não ter sido ele um teólogo como Enoque, Noé ou Jó. Era mais filósofo que teólogo. O conhecimento que possuía de Deus não provinha de uma relação experimental com o Todo-Poderoso; era fruto de suas especulações.

Não queremos, com isso, desmerecer esse tipo de conhecimento, porque Deus nô-lo deixou, a fim de que nos aproximemos dEle (Rm 1.18-21). Foi o que Paulo disse aos filósofos epicureus e estoicos no Areópago de Atenas (At 17.22-32). Por não possuir o conhecimento revelado de Deus, pôs-se Elifaz a condenar a Jó através de uma teologia casuística (Jó 42.7).

A perigosa Teologia de Elifaz

A teologia de Elifaz. Detenhamo-nos em alguns trechos de seu discurso: “Lembra-te, agora: qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram iniquidade e semeiam o mal segam isso mesmo. Com o hálito de Deus perecem; e com o assopro da sua ira se consomem” (Jó 4.7-9).

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Deste pronunciamento, depreendemos que a teologia de Elifaz tinha como base a ideia de um relacionamento mercantil com Deus. Ou seja: se lhe formos fiéis e lhe prestarmos a adoração que Ele demanda, seremos certamente abençoados; nenhum mal nos atingirá. Trata-se, pois, de uma simples troca comercial. Em linguagem popular: um toma-lá-dá-cá.

Uma teologia sofismática. Usando e abusando dos sofismas, Elifaz erradamente conclui: apenas os que desagradam a Deus sofrem; se Jó estava sofrendo, logo: cometera ele algum pecado contra o Senhor. Desconhecia ele, por acaso, a história de Abel? (Gn 4.4-8) Ou o drama vivido por Enoque que, por trezentos anos, profetizara num mundo que em nada diferia do inferno? (Gn 5.22-24) Ou por acaso ignorava o fato de o patriarca Noé haver construído a arca sob os impropérios de uma geração que se achava completamente tomada pelo demônio? (2Pe 2.5) Registra a História Sagrada que homens piedosos, dos quais não era digno o mundo, acabaram perecendo da forma mais inimaginável e repulsiva (Hb 11.37,38). Então, como pôde Elifaz jogar com as palavras, a fim de atribular ainda mais a Jó? Seus sofismas não resistem ao menor dos exames.

Uma teologia perversa. Elifaz ultrapassa todos os limites do bom senso; chega a tratar o patriarca de injusto e louco (Jó 5.1-5). Suas acusações não terminam aí; atingem a própria família do patriarca. Se esta havia perecido, então um só era o culpado: Jó. Como se haver numa situação dessas? Como suportar tão graves incriminações?

Jó Responde

Diante de um discurso abusadamente falacioso, responde o patriarca: “Oh! Se a minha mágoa retamente se pesasse, e a minha miséria juntamente se pusesse numa balança! Porque, na verdade, mais pesada seria do que a areia dos mares; por isso é que as minhas palavras têm sido inconsideradas” (Jó 6.2,3).

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Jó pede uma balança. O que requeria o patriarca de seus amigos? Que o ouvissem com atenção, e com justiça lhe pesassem as palavras e as queixas. Reivindicava ele uma balança na qual lhe fosse avaliada a miséria; pois suas palavras haviam sido inconsideradas. Será que Elifaz desconhecia a justiça de Jó?

A Teologia da Aflição. Lemos nos Salmos que muitas são as aflições do justo, mas o Senhor o livra de todas (Sl 34.19). O próprio Cristo alertou que, no mundo, teremos aflições, mas que, nem por isso, deveríamos perder o ânimo (Jo 16.33). Escrevendo aos coríntios, afirmou Paulo: “Porque, como as aflições de Cristo são abundantes em nós, assim também a nossa consolação sobeja por meio de Cristo” (2Co 1.5). Não queremos, com isso, lançar as bases de uma teologia da aflição. O que buscamos realçar é a supremacia da graça divina; ela é mais do que suficiente para consolar-nos em todas as agruras.

OBS: ARGUMENTO BIBLIOLÓGICO –  “Em todo o seu sofrimento, o alívio de Jó consistia no fato de que ele não se desviara do Senhor, nem negou as palavras de Deus. Desconhecendo qualquer pecado seu, deliberado ou involuntário, Jó afirmou sua inocência no decurso de todo o seu livro (ver 13.23; 16.17; 27.6), convicto de que sempre procurara honrar e obedecer a Deus. Por isso, ele podia regozijar-se, mesmo na dor” (Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD, p.777). (2) Devemos gloriar-nos em nossas fraquezas e ver nelas valor eterno, porque elas fazem com que o poder de Cristo desça sobre nós e habite em nós, à medida que avançamos nesta vida em direção ao nosso lar celestial” (Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD, pp.1786,1787).

A Graça de Deus – o Antídoto contra a Teologia de Elifaz

Elifaz, à semelhança de muitos religiosos de nossos dias, acreditava que o homem, penitenciando-se e tudo fazendo por comprazer a Deus, jamais será atingido por quaisquer calamidades. Supunha ele ser possível agradar a Deus com boas obras, e com boas obras levá-lo a afastar de nós as angústias e tribulações desta vida (Rm 8.35-37). O que diz a Bíblia?

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A imperfeição das obras humanas. Ignorava Elifaz que, por mais perfeitas que nos sejam as obras, jamais poderemos justificar-nos diante de Deus, pois não passam elas de trapos de imundície (Is 64.6). Em consonância com Isaías, pergunta Miquéias: “Com que me apresentarei ao SENHOR e me inclinarei ante o Deus altíssimo? virei perante ele com holocaustos, com bezerros de um ano?” (Mq 6.6). Como poderá o homem justificar-se diante de Deus? É a pergunta que nos faz Jó? (Jó 25.4) Temos aqui uma das mais importantes indagações teológicas. O homem não necessita praticar obra alguma para alcançar o favor divino nem para ser justificado diante de Deus. Só nos é necessária uma única coisa: aceitar a Jesus e confiar em seus méritos como nosso suficiente salvador. Isto significa que, através de Cristo, seremos vistos por Deus como se jamais houvéramos cometido qualquer pecado ou iniquidade. E, assim, seremos declarados justos com base na justiça de Cristo (Rm 5.1-8).

OBS: ARGUMENTO BIBLIOLÓGICO – “A graça é a presença, o favor e o poder de Deus em nossa vida. É uma força, um poder celestial outorgado àqueles que invocam a Deus. Essa graça descerá sobre o crente fiel que suportar suas fraquezas e dificuldades, por amor ao evangelho (Fp 4.13). (1) Quanto maior a nossa fraqueza e provações ao servirmos a Cristo, tanto mais graça Deus nos dará para cumprir sua vontade. Aquilo que Ele nos dará é sempre suficiente para vivermos nossa vida diária, para trabalharmos por Ele e para suportarmos nossos sofrimentos e ‘espinhos’ na carne (cf. 1Co 10.13). Enquanto estivermos perto de Cristo, Ele nos outorgará a sua força celestial.

Conclusão

Elifaz, como muitas pessoas hoje em dia, não aceitava o sofrimento do justo atribuindo a este alguma falha que pudesse desencadeá-lo. Este episódio nos serve de lição para mostrar como é falível a visão humana. Nunca poderemos entender os desígnios de Deus, pois nossa visão é terrena e limitada.

Devemos, antes, aceitá-los, porque Deus é soberano e seu domínio se estende por todo o universo e, nada acontece sem sua permissão. O homem é incapaz de justificar-se perante Deus. O único escape é refugiar-se na graça divina, pois, é ela que nos justifica.

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